Escrita Galega

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Identidades divergentes

O imaginário coletivo tende a associar cada país a uma só língua. Isto nem sempre dá certo, já que há países sem idiomas oficiais, ou que são multilingues…

Lembram que, na publicação anterior, disse que «a minha é uma identidade plural que diverge do que se costuma esperar de uma pessoa com nacionalidade espanhola»?

O imaginário coletivo global tende a associar cada país a uma única língua oficial. Isto nem sempre dá certo, já que há países sem idiomas oficiais, ou com vários idiomas oficiais.

Em Portugal, por exemplo, a única língua oficial é o português. Existem ainda outros idiomas próprios que são reconhecidos e protegidos oficialmente: o barranquenho, o mirandês e a língua gestual portuguesa.

Contudo, o país tem uma identidade nacional majoritária que se expressa em português, o que poderia levar-nos a pensar que a cada país corresponde uma única identidade. No entanto, esse não seria o caso da Espanha.

Apesar de existir uma identidade espanhola, esta baseia-se na língua castelhana e costuma subordinar outras identidades existentes nas regiões com idiomas próprios. Em geral, há quem se senta (1) só espanhol, (2) espanhol e mais alguma coisa ou (3) outra coisa.

Uma grande maioria na Espanha conhece o castelhano — oficial em todo o território — mas, na verdade, mais de um terço da população utiliza também uma «língua regional».

Isso pode resultar na existência de identidades divergentes, especialmente se tivermos em conta que: (A) alguns idiomas regionais não são bem assim, por travessarem fronteiras e contarem com milhões de falantes; (B) algumas regiões são realmente nações que visam ter outras maneiras de se organizar.

Num país dividido em dezassete regiões, onze delas têm línguas próprias:

  • Aragão — Aragonês e catalão (não oficiais)
  • Astúrias — Asturiano e galego-asturiano (não oficiais)
  • Castela e Leão — Galego e leonês (não oficiais)
  • Catalunha — Aranês e catalão (oficiais)
  • Estremadura — Estremenho, português e xalimego (não oficiais)
  • Galiza — Galego (oficial)
  • Ilhas Baleares — Catalão (oficial)
  • Múrcia — Catalão (não oficial)
  • Navarra — Basco (oficial)
  • País Basco — Basco (oficial)
  • País Valenciano — Valenciano (oficial)

A variedade de nomes das línguas acima referidas pode simplificar-se como segue:

  • Aranês é o que se conhece como occitano no Vale de Aran (Catalunha).
  • Asturiano, estremenho e leonês são os nomes que recebe o asturo-leonês, respetivamente, nas Astúrias, na Estremadura e em Castela e Leão. Nas Terras de Trás-os-Montes (Portugal), este idioma conhece-se como mirandês.
  • Galego-asturiano e xalimego são os nomes utilizados pelos falantes da língua galega, respetivamente, nas Astúrias e na Estremadura. É possível argumentar que o galego seja uma variante do português.
  • Valenciano é a denominação oficial do catalão no País Valenciano.

Em 2025, segundo o sítio web do Instituto Nacional de Estadística, Espanha tinha aproximadamente 49 milhões de habitantes, dos quais 28,5 milhões (= 58,2% da população) moram nas regiões que têm o castelhano como única língua oficial: Andaluzia, Aragão, Astúrias, Cantábria, Castela-Mancha, Castela e Leão, Estremadura, Ilhas Canárias, La Rioja, Madrid e Múrcia.

Nas regiões com línguas cooficiais (20,5 milhões = 41,8% da população), a proporção de hispanofalantes monolingues é minoritária em Catalunha, Galiza, Ilhas Baleares e País Valenciano; todavia, isso não parece acontecer em Navarra e no País Basco.

Logo, podemos concluir que a maioria de falantes monolingues de castelhano na Espanha é pequena; ou seja, é inferior a dois terços do total de habitantes.

No tocante à identidade, não posso falar senão por mim. A minha é essencialmente catalã e galega, porquanto as experiências que vivi na Catalunha e na Galiza foram as mais marcantes, até ao ponto de acabar por fazer minhas a língua e a cultura de cada uma dessas terras.

Tenho duas nacionalidades (Espanha e Estados Unidos), porém, um papel nem sempre faz identidade. Assim como o meu local de nascimento (Aragão) não me fez aragonês, os meus passaportes não contribuíram para me sentir espanhol ou estadunidense por cima de tudo.

Embora não rejeite a ideia de ser espanhol, não considero que isso inclua a minha catalanidade e galeguidade. Tendo um pai castelhano e uma mãe estremenha — ambos falantes monolingues de espanhol — seria absurdo negar as minhas raízes.

Ora bem, «as árvores não são de onde nascem, mas de onde se plantam» e eu fui transplantado muito cedo e várias vezes.

Tal como disse outrora, se fosse um vinho, seria uma mistura cultivada na Galiza, maturada na Catalunha, fortificada no American Midwest e engarrafada no Entre Douro e Minho: todos aqueles lugares onde senti que pertenci e que constituem a minha identidade.

Esta publicação fundamenta-se noutro artigo da minha autoria que podem consultar aqui.

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